Por que cachorros comem fezes? Essa é uma das perguntas mais pesquisadas por tutores no Brasil, e também uma das mais constrangedoras de admitir que você precisou googlar. Mas se o seu cachorro faz isso, saiba que você está longe de ser o único.
Estudos sobre comportamento canino mostram que aproximadamente 16% dos cães praticam a coprofagia, nome técnico para o hábito de comer fezes, com frequência regular. Quase metade já fez pelo menos uma vez na vida. Não é esquisitice do seu animal, não é falta de educação e não é falta de carinho da sua parte. É um comportamento documentado, com causas identificáveis e, na maioria dos casos, com solução real.
O problema é que a maioria dos tutores tenta resolver sem entender a causa. E coprofagia que vem de deficiência nutricional tem solução completamente diferente de coprofagia que vem de ansiedade, que tem solução diferente de coprofagia que é um hábito de filhote que nunca foi interrompido. Tratar a causa errada não resolve. Por isso esse guia começa pelas causas antes de chegar a qualquer produto ou técnica.
Se o seu cachorro come as próprias fezes, come fezes de outros animais, ou faz isso apenas em situações específicas, você vai encontrar a explicação e a abordagem certa para o seu caso aqui.
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Por que cachorros fazem isso: as causas reais
Antes de tentar qualquer solução, precisa entender qual é a causa no caso específico do seu cão. Coprofagia que vem de deficiência nutricional tem solução diferente de coprofagia que vem de ansiedade, que tem solução diferente de coprofagia que é simplesmente um hábito de filhote que nunca foi interrompido. Tratar a causa errada é perder tempo e paciência.
Causa 1: é coisa de filhote e muitas vezes passa sozinho
Em filhotes de dois a cinco meses, comer fezes é relativamente comum e frequentemente se resolve sem intervenção específica à medida que o animal amadurece.
A mãe come as fezes dos filhotes nas primeiras semanas de vida para manter o ninho limpo e para estimular a eliminação dos recém-nascidos. O filhote cresce observando esse comportamento e pode simplesmente estar imitando. Além disso, nessa fase tudo vai para a boca porque o mundo é explorado oralmente. As fezes não são exceção.
Se o seu filhote tem menos de seis meses e faz isso ocasionalmente, o mais eficaz costuma ser manter o ambiente limpo para reduzir o acesso e aguardar o amadurecimento. Reforçar positivamente quando ele ignorar as fezes, elogiar e dar petisco quando ele se afastar sem investigar, acelera o processo.
Causa 2: deficiência nutricional ou problema de absorção
Essa é a causa mais comum em cães adultos que desenvolvem o comportamento de forma súbita ou persistente.
Quando o organismo não consegue absorver adequadamente os nutrientes da alimentação, seja por deficiência de enzimas digestivas, por qualidade ruim da ração ou por alguma condição gastrointestinal, o cão pode buscar nas fezes o que não está aproveitando da comida. As fezes contêm matéria orgânica parcialmente digerida que o instinto do animal identifica como fonte nutricional.
Fezes de outros animais, especialmente de herbívoros como coelhos, cavalos e gatos, têm composição que pode ser particularmente atrativa para cães. O intestino de herbívoros contém enzimas digestivas e material vegetal parcialmente processado que para o olfato e o paladar canino representa algo nutritivo.
Sinais que apontam para causa nutricional incluem o comportamento aparecer ou intensificar após mudança de ração, fezes volumosas e mal formadas que indicam baixa absorção, e o cão comer fezes de outros animais mais do que as próprias.
O que fazer: consultar o veterinário para avaliar a qualidade da alimentação e a absorção intestinal. Trocar para uma ração de melhor qualidade com fontes proteicas identificadas pode resolver o problema em algumas semanas sem nenhuma outra intervenção.
Causa 3: deficiência de enzimas digestivas
Parecida com a causa anterior mas com mecanismo específico. Algumas enzimas digestivas produzidas pelo pâncreas são essenciais para quebrar proteínas, gorduras e carboidratos. Quando há insuficiência dessas enzimas, a digestão é incompleta e as fezes retêm compostos que o cão consegue detectar como alimento não aproveitado.
A insuficiência pancreática exócrina é uma condição diagnosticável por exame de sangue específico. Em cães com esse diagnóstico, a suplementação de enzimas digestivas adicionadas à comida geralmente resolve a coprofagia de forma bastante rápida porque a causa raiz foi endereçada.
Causa 4: busca por atenção
Esse é o mecanismo que mais surpreende tutores porque parece contraintuitivo: o cão come fezes porque aprendeu que isso gera uma reação muito expressiva do tutor.
A cena clássica é a seguinte. O cão come fezes pela primeira vez por curiosidade ou por qualquer outra razão. O tutor vê, grita, corre, gesticula, faz uma expressão de horror que seria cômica em qualquer outro contexto. Para o cão, toda essa movimentação é atenção. Muita atenção. Mais atenção do que qualquer comportamento que ele fez hoje.
Se ele estava entediado, se passa muito tempo sozinho, se não recebe estimulação suficiente, qualquer atenção é melhor que nenhuma, mesmo que seja negativa. O comportamento que gera aquela reação toda vai ser repetido.
Identificar se essa é a causa fica mais fácil quando o comportamento acontece especialmente quando o tutor está por perto e parece diminuir quando o cão está sozinho, quando a reação do tutor claramente excita o animal em vez de inibi-lo, e quando o cão demonstra outros comportamentos de busca de atenção ao longo do dia.
O que fazer aqui é contraintuitivo mas funciona: reação absolutamente neutra. Nem gritar, nem correr, nem fazer cara de nojo. Simplesmente redirecionar com voz calma e limpar sem drama. A atenção para quando o comportamento indesejado acontece e começa quando o cão faz algo adequado.

Causa 5: ansiedade e comportamento compulsivo
Em ambientes com tensão elevada, em cães que ficam muito tempo sozinhos, ou em animais com histórico de trauma ou punição excessiva, a coprofagia pode ser um comportamento de regulação emocional. É uma descarga de estresse que o cão encontrou e que funciona para aliviar a tensão momentaneamente.
Identificar essa causa é importante porque o tratamento é diferente. Punir um comportamento compulsivo de origem ansiosa aumenta a ansiedade e geralmente piora o comportamento, não melhora.
Sinais que apontam para causa ansiosa incluem o comportamento aparecer ou intensificar em situações de estresse, vir acompanhado de outros sinais de ansiedade como destruição de objetos, lambida excessiva ou eliminação em lugares inadequados, e o histórico do animal ter incluído ambientes instáveis ou punição física.
Causa 6: aprendi que as fezes somem e quero eliminar a evidência
Essa causa aparece especificamente em cães que foram punidos por eliminar em lugares inadequados durante o treinamento de banheiro. O cão não entende que o problema é onde eliminou. Ele entende que fezes visíveis geraram punição. A solução que ele encontrou é fazer as fezes desaparecerem antes que o tutor as encontre.
Se o comportamento apareceu durante ou logo após o treinamento de banheiro e acontece especialmente quando o tutor não está por perto, essa é provavelmente a causa. A solução é revisar a abordagem do treinamento, eliminando completamente qualquer punição associada à eliminação e focando exclusivamente em reforço positivo quando o cão elimina no lugar certo.
O que não funciona e por que as pessoas continuam tentando
Punição: independente da causa, punir a coprofagia raramente resolve e frequentemente piora. Se a causa é ansiedade, a punição aumenta a ansiedade. Se a causa é busca de atenção, a punição é atenção. Se a causa é nutricional, a punição não muda nada na absorção intestinal. Punição sem tratamento da causa é ruído.
Abacaxi e glutamato na comida: existe a crença popular de que adicionar abacaxi fresco ou glutamato monossódico à comida torna as fezes do próprio cão menos atraentes pelo sabor. Em alguns casos funciona parcialmente como dissuasivo, mas resolve o sintoma sem tocar na causa. Se a causa é nutricional ou ansiosa, o dissuasivo vai funcionar até o dia em que não funcionar mais.
Focinho no cocô: colocar o focinho do cão nas fezes como punição é ineficaz do ponto de vista comportamental e potencialmente prejudicial à saúde. O cão não consegue fazer a conexão entre a punição e o comportamento passado, e o contato forçado com as fezes pode causar infecções.
Riscos de saúde que precisam ser mencionados
Coprofagia não é apenas um comportamento inconveniente. Tem riscos de saúde reais que justificam a urgência de resolver.
Fezes podem conter parasitas intestinais, bactérias patogênicas e vírus que são transmitidos pela ingestão. Cão que come fezes de outros animais, especialmente de animais desconhecidos em parques e ruas, está se expondo a uma variedade de agentes que o sistema imunológico dele pode não estar preparado para lidar.
Além disso, o comportamento torna ineficaz qualquer controle de parasitas. De que adianta vermifugar o cão se ele está se reinfestando constantemente pela ingestão de fezes contaminadas?
A periodicidade do vermífugo e o controle do ambiente são ainda mais importantes em cães com esse comportamento do que na média.

O protocolo que funciona na prática
A abordagem mais eficaz combina três frentes simultaneamente.
Primeira frente: controle do ambiente. Remover as fezes do ambiente imediatamente após a eliminação é a medida mais simples e mais impactante no curto prazo. Se não tem fezes disponíveis, não tem comportamento. Isso não resolve a causa, mas interrompe a prática e evita o reforço do hábito enquanto o tratamento da causa está sendo feito.
Segunda frente: investigação veterinária. Para coprofagia persistente em cão adulto, uma consulta veterinária com exame de fezes para pesquisa de parasitas e avaliação da qualidade da absorção intestinal é o passo que descarta ou confirma causa médica. Sem isso, você pode estar tratando o comportamento quando o problema é fisiológico.
Terceira frente: trabalho comportamental. Independente da causa, ensinar o comando “deixa” ou “vem” com reforço positivo alto, e recompensar generosamente quando o cão se afasta das fezes em vez de investigá-las, cria uma resposta alternativa ao comportamento. Com o tempo e consistência, o cão aprende que ignorar as fezes e vir para o tutor é muito mais recompensador do que investigá-las.
Para referências sobre coprofagia canina e suas causas, o estudo de Benjamin Hart da Universidade da Califórnia em Davis, um dos mais citados sobre o tema, analisou mais de 3000 cães e está disponível para consulta em publicações de comportamento veterinário em vetmed.ucdavis.edu.
Quando o problema é mais sério do que parece
A maioria dos casos de coprofagia tem causa identificável e resolução viável com as abordagens descritas. Mas existem situações que merecem atenção veterinária mais aprofundada.
Se o comportamento apareceu subitamente em um cão adulto que nunca fez isso antes, se vem acompanhado de perda de peso, mudança no apetite ou alteração nas fezes, se o cão parece compulsivo e não consegue se afastar mesmo quando você intervém, ou se já tentou múltiplas abordagens por mais de um mês sem resultado, vale uma avaliação veterinária mais completa que inclua exames de sangue e de imagem se necessário.
Algumas condições endócrinas como hipotireoidismo e síndrome de Cushing podem se manifestar com alterações comportamentais que incluem coprofagia. Descartar causa médica sistêmica é parte do protocolo de investigação completo.
Uma última coisa antes de terminar
Se você chegou até aqui com aquela mistura de alívio por não ser o único com esse problema e determinação para resolver, você está no lugar certo.
O cachorro que come fezes não é um cachorro com defeito. É um cachorro com um comportamento que tem causa, que tem explicação e que na grande maioria dos casos tem solução quando você trata o que está por trás dele em vez de apenas reagir ao que está na superfície.
Paciência, consistência e a abordagem certa por causa. É isso.
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