Por que cachorros cheiram as partes íntimas de pessoas e outros cães? Essa é uma das perguntas mais pesquisadas sobre comportamento canino no Brasil, e a resposta é muito mais fascinante e biologicamente sofisticada do que qualquer um imagina.
O nariz do cachorro tem entre 100 e 300 milhões de receptores olfativos. O humano tem cerca de 6 milhões. Essa diferença não é só de quantidade: é uma forma completamente diferente de processar e entender o mundo. E a região genital e perianal de humanos e animais é a que tem maior concentração de glândulas apócrinas, que produzem uma mistura única de feromônios e compostos químicos que para o olfato canino funcionam como um perfil biológico completo do indivíduo.
Em outras palavras: quando o seu cachorro farejar aquela região de uma visita, ele está coletando mais informações sobre essa pessoa do que um aperto de mão, uma conversa de dez minutos ou qualquer outra forma de cumprimento humano seria capaz de fornecer. Sexo, estado hormonal, nível de estresse, estado de saúde geral. Tudo isso está disponível ali para um nariz que consegue detectar uma gota de substância diluída em 20 piscinas olímpicas.
Se o seu cachorro faz isso com visitas, com crianças, com outros cães ou com você mesmo, você vai entender exatamente o que ele está fazendo e como ensinar um comportamento alternativo sem reprimir um instinto que faz parte da natureza dele.
Primeiro, os números que colocam tudo em perspectiva
Para entender por que o cachorro age como age, precisa entender a diferença entre o nariz dele e o seu.
Um humano tem em média 6 milhões de receptores olfativos. Parece muito até você comparar com os 100 a 300 milhões que um cão tem, dependendo da raça. O Bloodhound, campeão absoluto nesse quesito, pode ter até 300 milhões de receptores. Isso não é só quantidade, é uma diferença qualitativa na forma de processar o mundo.
A área do cérebro dedicada a analisar cheiros em cães é proporcionalmente 40 vezes maior do que a equivalente no cérebro humano. Para ter uma ideia do que isso significa na prática, pesquisadores estimam que um cão bem treinado consegue detectar uma gota de substância química diluída em um volume equivalente a 20 piscinas olímpicas.
O cheiro não é um sentido secundário para o cachorro. É a principal forma como ele experimenta e entende o mundo. Enquanto você processa uma situação social principalmente pela visão e pela audição, o cachorro processa principalmente pelo olfato. Retirar o olfato de um cão seria equivalente a vendá-lo e tampá-lo ao mesmo tempo, do ponto de vista do processamento de informação.
Dito isso, por que especificamente aquela região?
A região com mais informação do corpo inteiro
A resposta é glandular, literalmente.
O corpo humano tem dois tipos principais de glândulas sudoríparas. As écrinas, espalhadas por todo o corpo, produzem suor basicamente composto de água e sal para regulação de temperatura. E as apócrinas, concentradas em regiões específicas como axilas, virilha, região perianal e atrás das orelhas, que produzem uma secreção muito mais complexa quimicamente.

As glândulas apócrinas produzem feromônios e uma mistura de compostos orgânicos que variam conforme o estado hormonal, emocional e fisiológico do indivíduo. Essas substâncias carregam informações que para o olfato canino são extremamente específicas e legíveis: sexo biológico, estado hormonal aproximado, se a pessoa está estressada ou relaxada, algumas condições de saúde, e em mulheres, fase do ciclo menstrual.
A virilha e a região genital têm a maior concentração de glândulas apócrinas do corpo humano. Do ponto de vista do cão, é literalmente a região com mais informação disponível. Farejar qualquer outra parte do corpo seria como tentar ler um livro pela capa quando você pode abri-lo direto nas páginas mais informativas.
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O que o cachorro está lendo quando faz isso
Isso vai parecer ficção científica, mas é documentado em pesquisa.
Quando o cachorro farejo a região genital de um humano ou de outro cão, ele está coletando e processando uma quantidade de informação que não tem equivalente em nenhum sentido humano. Veja o que está disponível ali para o sistema olfativo dele.
Identidade individual: cada ser humano tem um perfil químico único, uma combinação de compostos que funciona como uma impressão digital olfativa. O cachorro que farejou você uma vez consegue reconhecê-lo pelo cheiro mesmo meses depois, mesmo que você tenha mudado de perfume, de roupa e de shampoo.
Estado emocional: o estresse libera cortisol e adrenalina que alteram a composição química do suor de forma detectável pelo olfato canino. Um cachorro consegue perceber que você está nervoso ou com medo com precisão muito maior do que qualquer pessoa conseguiria apenas olhando para o seu rosto.
Estado hormonal: variações nos níveis de estrogênio, progesterona e testosterona alteram o perfil químico das secreções apócrinas. Em cadelas, outros cães conseguem identificar pelo olfato se ela está no cio, em qual fase do cio está, e se já foi fecundada. Em humanos, pesquisas documentaram que cães conseguem detectar variações hormonais associadas ao ciclo menstrual.
Indicadores de saúde: cães treinados para detecção médica conseguem identificar pelo olfato biomarcadores associados a vários tipos de câncer, hipoglicemia em diabéticos e crises epilépticas iminentes. Esse talento existe porque a doença altera o perfil químico do organismo de formas detectáveis pelo olfato canino antes de qualquer sintoma visível. Quando o seu cachorro fica obcecado em farejar uma região específica do seu corpo, especialmente de forma persistente e incomum, vale prestar atenção.

Por que fazem isso com estranhos mais do que com quem conhecem
Você provavelmente já reparou que o cachorro faz isso muito mais com pessoas que estão chegando pela primeira vez do que com os moradores da casa. Não é coincidência.
Com as pessoas que convivem diariamente, o cachorro já tem o perfil olfativo memorizado. Ele conhece o cheiro de cor, sabe o estado de base de cada pessoa da casa e percebe facilmente quando algo mudou. Não precisa fazer uma investigação completa toda vez.
Com um estranho, ele está partindo do zero. É uma nova identidade, um novo perfil químico, um novo conjunto de informações para processar. A investigação olfativa é o equivalente canino da apresentação social, só que infinitamente mais rica em informação do que um aperto de mão ou uma troca de nomes.
É também por isso que o comportamento tende a ser mais intenso com visitas que chegam agitadas, com cheiro de outros animais, ou em estados emocionais diferentes do habitual. Mais informação nova significa mais interesse olfativo.
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Como isso funciona entre cães
Em cães, o comportamento tem uma função social ainda mais clara e estruturada.
Quando dois cães se encontram e se farejam mutuamente na região anal e genital, estão trocando o equivalente a um dossiê completo. A região perianal tem glândulas anais que produzem secreções únicas por indivíduo, e os cães as usam para comunicar status, intenção e estado. É um sistema de comunicação que funciona muito bem e que os cães reconhecem instintivamente.
A saudação olfativa entre cães tem uma ordem social implícita: o cão de status mais baixo geralmente permite ser farejado primeiro, e o de status mais alto tem o privilégio de farejar sem ser farejado imediatamente. Quando um cão tenta farejar outro que não está receptivo e o segundo afasta ou roda, ele está comunicando que essa troca de informação não foi autorizada. É comunicação social sofisticada.
Interromper forçosamente essa saudação entre dois cães que se encontraram pode aumentar a tensão entre eles porque a troca de informação não foi concluída. Em encontros entre cães desconhecidos em contexto controlado, deixar a saudação olfativa acontecer é parte do protocolo de apresentação segura.

O cachorro consegue detectar doenças por esse comportamento
Essa parte merece destaque porque tem implicação prática real.
Existem casos documentados de tutores que foram ao médico depois de perceberem que o cachorro ficava insistentemente farejando uma área específica do corpo, e que o exame revelou algo que ainda não tinha dado sintoma visível. Câes treinados para detecção de câncer de pele conseguem identificar lesões malignas pelo olfato com taxas de acerto impressionantes em estudos controlados.
Isso não significa que todo comportamento de farejar intensa e persistentemente uma área do corpo é sinal de alerta médico. Pode ser simplesmente um cheiro novo de sabonete ou uma picada de inseto que chamou a atenção. Mas um cachorro que volta repetidamente ao mesmo ponto do corpo do tutor com insistência incomum, especialmente se o comportamento é novo, vale ser mencionado ao médico como informação adicional.
O Instituto Médico Italiano de Oncologia documentou estudos onde cães detectaram cânceres de colorretal e de bexiga com precisão acima de 90% usando apenas o olfato. Para referências sobre detecção olfativa canina, pesquisas do grupo de Hideto Sonoda publicadas no jornal Gut estão disponíveis em gut.bmj.com.
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Como ensinar o cachorro a não fazer isso com visitas
O comportamento é instintivo e biologicamente motivado, então não é possível eliminá-lo completamente, nem deveria ser. Mas é possível ensinar o cachorro quando e como é aceitável fazer isso.
O treinamento mais eficaz é o de comportamento alternativo de saudação. O objetivo é ensinar o cachorro que quando uma pessoa nova chega, existe uma sequência diferente que gera recompensa: sentar, dar a pata ou simplesmente ficar parado enquanto a pessoa se aproxima para cumprimentar.
O passo a passo começa antes da visita chegar. Treinar o sentar com reforço positivo em contextos sem distração, consolidar o comportamento até que seja automático, e depois praticá-lo progressivamente em situações com mais estimulação, como na entrada de casa quando alguém chega.
No momento em que a visita está na porta, ter petiscos de alto valor disponíveis e pedir o sentar antes de abrir permite redirecionar a energia de saudação para o comportamento desejado. Com consistência, o cachorro aprende que visita chegando é sinal para sentar e receber recompensa, não para investigar imediatamente.
Isso não resolve em um dia e não funciona se for aplicado apenas quando tem visita. Precisa de prática regular para estar disponível no momento em que o gatilho aparece.

O constrangimento é seu, não dele
Terminar com isso: o cachorro que fareja a virilha da sua visita não tem noção de que fez algo socialmente inadequado. Ele não está sendo mal-educado, não está perturbando de propósito e não está tentando envergonhá-lo.
Ele está usando o sentido mais desenvolvido que tem para fazer o que o sistema nervoso dele foi projetado para fazer, coletar informação sobre o mundo social ao redor. O constrangimento é uma construção social humana que ele genuinamente não acessa.
O que você pode fazer é ensinar o comportamento alternativo com paciência, manejar o ambiente para reduzir as oportunidades de episódios constrangedores enquanto o treinamento está sendo feito, e talvez usar esse artigo para explicar para a próxima visita o que aconteceu. Na maioria das vezes, quando as pessoas entendem a explicação, o constrangimento vira curiosidade.
E o cachorro continua sem entender o problema. O que é, a seu modo, completamente justo.







